16/08/2004 21:55
O Causo da Tampa
Existem coisas realmente insignificantes na vida, que por instinto próprio de se fazerem notar, gritam, berram, nos encomodam... só para existir. Eis que darei vida a algo tão insignificante, que só me dei conta de sua existência, por pura insistência, por puro encômodo, coisas do cotidiano.
Nunca pensei que uma tampa do ralo do box do meu banheiro fosse render um post, pois é... Não falo do ralo, falo da tampa, que consegue ser tão insignificante quanto o próprio.
Só quem mora em "apertamento" sabe o que é falta de privacidade, uma janela indiscreta e suas frestas esquecidas quando resolvemos nos trocar, as paredes finas revelando uma guerra de decibéis, o gosto musical horrendo de seu vizinho, sua voz desafinada, suas brigas... sua vida. As famosas vizinhas gordas e fofoqueiras, todo prédio tem sua corja, a verdadeira imprensa camuflada em comentários no elevador, nos halls, nos interfones... elas têm um poder incrível de cuidar da vida de todos os condômínos, intento repulsivo de preencher o vazio de suas próprias vidas medíocres. E claro, os encanamentos... universo underground que abriga uma legião de criaturas obscuras, a highway das baratas, acesso livre a todos os "apertamentos" (certa vez ouvi um caso de uma barata que subiu pela privada). Pois dos encanamentos veem os ecos (as vizinhas fofoqueiras sabem bem desses ecos), dos ecos vem o ar consumido, e todo ar consumido carrega seus odores.
Quando mudei para esse "apertamento", tínhamos um ralo quadriculado, pelo qual escorria a água do nosso banho cansado, horas de reflexões no ardor de um banho pelando, verdadeiro palco de apresentações musicais, e o ralo com sua tampa cumpriam bem seu papel de escoar tudo... a água, os sentimentos e pensamentos ali despejados. Mas assim como o ralo levava as águas, trazia também os odores alheios. Esse serviço extra nos rendia muitas situações constrangedoras, principalmente quando recebíamos alguma visita. Parecia que o ralo adivinhava, era só chegar alguém, que ele já dava suas boas-vindas em baforadas de enxofre e gases inaláveis. E tínhamos que observar a reação das visitas, seus olhares desconfiados, seus risos contidos, seus comentários óbvios engolidos, e o pior era que não podíamos simplesmente dizer: "Ei, não fui eu... foi o ralo", a situação se agravaria, quem não deve, não teme, e se assim fizéssemos, pareceríamos réus culpados tentando justificar nossos crimes, escondendo as palmas das mãos amareladas.
Até que um belo dia, o problema pareceu estar de vez resolvido. Meu pai comprou uma tampa de ralo nova, cromada, com uma chavinha para obstruir todos seus furinhos, era só mantê-la fechada, e calaríamos de vez a boca podre do ralo incoveniente. Mas o ralo, é forte e resistente...
Certo dia, enquanto tomava banho, ouvi os encamentos rangerem, a bola incandescente vir com toda força, como um vulcão que está prestes a entrar em erupção. Começei a rir, e desafiei: "HAHAHA, agora você está preso para sempre HAHAHA", e para minha surpresa, a tampa respondeu ao meu desafio. Lentamente ela se ergueu, e soltou ali sua rajada de gases afoooonsos, e então começou a se abrir e fechar frenéticamente, rindo da minha cara...
...Ela tinha vencido, e eu, fiquei observando a cena perplexa, sendo evenenada por uma coletânia flatulenta de 64 apertamentos e sendo para sempre ridicularizada por uma tampa de ralo.
*Ouvindo "Borracho y Loco" do Los Enanitos Verdes*
enviada por thaisfairy
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