12/09/2004 02:05
Dream Storm
Do que são feitos os sonhos? Talvez da mesma matéria da vida, talvez da mesma fumaça do meu cigarro quando contemplo o sol nascer, debruçada na janela, enquanto as nuvens de sentimentos se dissipam na tormenta dàs 9. Nada me parece tão real, nada me parece tão palpável... Dos punhos pulsa o ar que purifica as ondas de pensamentos envenenados, as palmas das mãos voltadas para cima esperam a primeira gota da chuva que escoará toda mancha cinza do meu cotidiano. Ah, como preciso dessa chuva! Preciso do sangue celeste para sangrar de mim toda a doença da minha alma, preciso da eletricidade dos raios para ressucitar o meu coração viciado, preciso da luz dos relâmpagos para desatrofiar meus olhos cansados da mesma paisagem escura, preciso do estrondo dos trovões para despertar meus ouvidos que só ouvem uma única voz.
Caminho na borda de um prédio de 22 andares, já não sinto o cimento seguro nas pontas dos meus pés, só mais um passo e serei amparada pela sólida poluição da cidade tão pequena daqui de cima, abro meus braços para ao menos uma vez sentir o equilíbrio, e nem a mais forte das ventanias carregará meus sonhos, nem o sopro do mundo pode levar meu corpo. Não tenho medo de morrer, pois assim tão perto do fim percebo como temo não estar mais aqui, como ainda quero respirar, mesmo no meio de um ciclone de vida que me obriga, invadindo meus poros, a inspirar esse ar pesado. Como uma criança teimosa que rejeita o amparo de seus pais quando está dando seus primeiros passos, eu sei fazer isso sozinha, não se preocupem se eu cair, eu vou conseguir voltar.
Sorrio enquanto choro, amo enquanto odeio, enfrento enquanto me escondo. Entendam, preciso dos extremos simultaneamente, pois tenho medo de perder alguma coisa, estico ao máximo minha existência para não perder nada, pois quero ver o céu de todos os ângulos possíveis, quero ouvir os ruídos silenciosos em todos os tons, quero ler tantas palavras em todas as linguagens, quero sentir as vastas emoções em todos meus sentidos, quero dar voltas em todas direções, quero explorar os mundos privados em todo o espaço, quero popular todas utopias incabíveis, quero correr em todas velocidades. O que eu quero é sonhar, só para talvez alcançar o que sou, e conceber o espaço que o um sonho pode preencher, já reservando um lugar para acontecer. Sonhos existem, sonhos são o que me fazem. Do que são feitos os sonhos?
*Ouvindo "Njosnavelin (Nothing Song) do Sigur Ros*
enviada por thaisfairy
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