26/09/2004 17:20
Lento
Uma semana passa e eu só me vejo ao final dela. Tomo fôlego aos deprimentes domingos, armazeno o máximo de ar que meus pulmões podem suportar, quando segunda vem, apenas prendo minha respiração, para não me deixar envenenar pela fumaça cinza, o mormaço massacrante do meu cotidiano. E é assim que tem sido ultimamente.
Não serei engraçada, ou tampouco criativa aqui, se nada acontece comigo, por que deveria acontecer nesse mundo de palavras e pulsos telefônicos? Tudo anda tão parado, tão lerdo. Por que o mundo me cobra tudo agora se nada vai acontecer de fato? O amor não pode acontecer, pois agora, estou com preguiça de enfrentá-lo. Me desculpe, sei que nada volta, mas agora só quero deixar as coisas irem. Pode deixar, quando me interessar, correrei atrás.
Percorro desinterassadamente as páginas do Retrato de Dorian Gray, fecho o livro, escuto músicas repetitas, gostaria de compor uma agora, mas... deixa de lado, a minha poesia não encontrará métrica cabível, nem redondilhos no mundo quadrado e previsível que observo pela janela do meu quarto, na tela do meu computador.
Procuro sua voz no emaranhado de sons dentro da minha cabeça, mas dói, pois todo som que ouço são suas acusações impiedosas, e por infinita vezes te ouvirei me chamando de hipócrita, alguma vez você repetiu tanto uma palavra até destilar o significado de seu som? Fico com o agudo ó, preciso abrir minha boca para pronunciar, fazendo cara de peixinho.. óóóóóóóóóó, mais um corinho per favore, e meus amigos voltam a minha cabeça. Nesse monólogo, viajo por todas extensões da minha realidade, enquanto parada quando observo uma manchinha no teto, de tanto ficar deitada a fitá-lo. Alguma vez você olhou tão fixadamente para um ponto até este tomar forma e vida? Deixe-me jogar uma bolinha de tênis contra a parede, é só o dia que teoricamente deveria me encontrar, mas acabo de perceber, que preciso dos olhos alheios para me ver, das vozes alheias para falar, dos ouvidos alheios para ouvir,dos lábios alheios para sorrir... e hoje estou sozinha.
Aonde estou? Aonde estão meus amigos além de aqui dentro da minha cabeça? Eles me fizeram, e levaram minha essência consigo. Sou eu e meu tédio, num domingo indescritivelmente quente, eles sabem tão bem como odeio calor.
Espero a chuva, mesmo sabendo que não vai chover.
"Si quieres un poco de mí,
me deberias esperar.
Y caminar a paso lento,
muy lento
y poco a poco olvidar,
el tiempo y su velocidad
frenar el ritmo,ir muy lento, más lento.
Ser delicado y esperar,
dame tiempo para darte
todo lo que tengo.."
(Lento - Julieta Venegas)
*Ouvindo "Lento" da Julieta Venegas*
enviada por thaisfairy
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