09/10/2004 22:41
A Última Viagem do Caminho Circular
Estação Cidade Universitária
It´s not going to stop.. Não agora, isso não vai parar agora, até que eu possa entender, mas agora esse peso no meu coração me prende ao chão úmido, e por mais uma vez o inundarei com lágrimas e lamentos ordinários. Eu sou mais aquela que escorava a cabeça na janela do trem com o olhar descontente, você reparou por instantes, mas logo você voltou a pensar no que iria fazer esse feriado. Uma curva mais estreita do trem, acabo batendo minha cabeça na paisagem ambulante, ainda bem que há o reflexo do Pinheiros, pois pensei que a paisagem poderia ter se quebrado, por segurança, o reflexo imita o ponto que esqueci de acompanhar na minha viagem.
Estação Pinheiros
Aumento o volume do discman, deixe-me isolar com barulho, a balada descompassada dos meus pensamentos. Os pés acompanham cada batida, mas logo se cansam de marcar o tempo dessa vida, só quero esquecer quando a música vai terminar, pois só não quero lembrar da música acabando.
Estação Hebraica-Rebouças
Era aqui que eu costumava descer para ir ao cursinho... Vou descer, esqueci de ir ao banheiro, preciso descer! Seria uma brincadeira de Dionísio em ceder seu fruto para deleitarmos seu sabor ácido, e ao mesmo tempo nos amaldiçoar com uma vontade incontrolável de urinar periódicamente de cinco em cinco minutos? Disfarço ao máximo meu desespero em aliviar minhas necessidades fisiológicas, ufa! Como é bom fazer xixi! Volto para a plataforma fria, a viagem ainda não acabou, não poderia acabar dessa forma.
Estação Cidade Jardim
Não sei como vou voltar, sei que a próxima viagem será tão diferente, sei que esses trilhos marcam a direção dessa noite, agora tudo vai mudar, eu já comentei como odeio mudanças! Mas sei que precisavam delas, meu cotidiano ganha mais um tom negro-claro no seu cinza, estes serão tempos incertos, e não haverá farol que mostrará os rumos dos meus dias daqui pra frente.
Estação Vila Olímpia
Puxa! Queria fumar agora, por que será que não reservam um vagão para fumantes nesses trens?! Privilegiar aqueles que escolheram se destruir de uma forma ou de outra. Uma câmara de fumaça, daqueles que aliviam sua vida antecipando um pouco sua morte. Não penso na morte enquanto fumo, e sinceramente me sinto mais viva sabendo, mesmo incoscientemente, em cada tragada, que a vida é tão tangível quanto a fumaça que sai do meus espasmos asmáticos de vivê-la.
Estação Berrini
Lembro-me das minhas viagens a São José dos Campos na minha infância, quando voltava ajoelhada no banco de trás olhando o estrada percorrida no vidro traseiro do carro do meu pai. Olhava as linhas amarelas dançarem, sumindo e voltanto na imensidão cinza do asfalto. Acho que ainda não perdi essa mania de me despedir de tudo que passa, e prestar uma última atenção àquilo que não existirá mais por estarem ainda tão evidentes aos meus olhos atentos.
Estação Morumbi
Por que as pessoas fazem questão de levantar a capa do livro enquanto lêem publicamente? Querem tanto mostrar sua intelectualidade gravada e decorada nos capítulos do vai-e-vem, mal sabem que essas palavras já sei de cor, decifro suas almas no horóscopo do jornalzinho mais capenga de bairro. Eles se repetem e esqueçeram que o livro está de ponta-cabeça. Não honey, livros de auto-ajuda não me impressionam, nem mesmo esse aí com a psicografia da sua futilidade impressa.
Estação Granja Julieta
Minha atenção se volta para o fato crú, eu sei, eu perdi meu emprego, ou será que o emprego me perdeu hoje? Eu e minha presunção de me achar especial, talvez isso doa menos, talvez eu saiba que isso seja verdade, mesmo sabendo que não é. Minhas antíteses é só para completar tudo que eu poderia ser, tão forte, tão fraca, tão perto, tão longe, tão eu, tão eles. Eu quero tudo que nada pode proporcionar.
Estação Santo Amaro
E aí que eu termino, as portas dos trens se abrem e eu me reluto a descer, pois sei que o caminho será diferente na próxima viagem, tenho tanto medo de não saber pra onde estou indo, mas sei que agora não irei muito longe, até que eu me liberte da estrada viciosa das minhas inseguranças e tenha força o bastante em pegar o outro rumo na próxima bifurcação. E mais uma vez irei resnascer, mesmo que na verdade a minha concepção seja a mesma do repetidos partos e partidas... Mas o trem não pára and it´s not going to stop until I wise up.
*Ouvindo "Wise Up" da Aimee Mann*
enviada por thaisfairy
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