22/10/2004 20:43
Black & White
Meu dia começa nas variantes dos berros das crianças que empinam pipa e exclamam palavrões. Levanto e observo o sol refletido nas janelas do ônibus que já levaram tantas pessoas nessa manhã, quando eu apenas tentava ultrapassar o barreira do sono. O telefone toca, mas não me chama. No hall, os elevadores sobem e descem, posso ouvir o barulho das correntes, sinto o peso que equilibra o caminho vertical das pessoas anônimas que convivem comigo através dessas paredes finas. Mais um copo de café preto, envolta de formas brancas que surgem entre a nuvem de fumaça do meu cigarro. Me puxe para fora, pois a paisagem já se tornou preta e branca dentro desses olhos cansados. Me fale de política, sobre o soldado que foi preso por abusar dos iraquianos, por favor, guie essa conversa para que eu não volte a cair em pieguices ordinárias, pois não quero parecer auto-piedosa e você não entenderia o meu silêncio. Eu já disse que cansaço não é tristeza. Me tire daqui por favor, mas seja sutil e me pegue pelas mãos, senão não irei.
Não entendo por que me sinto assim, por que tudo não parece tão poético como os sons da palavras que quis dizer, por que tudo é tão cru. E por mais uma vez pedirei desculpas por não conseguir sorrir. Eu sei, a culpa é minha, sei que deveria tomar logo uma atitude e mudar logo, mas hoje não. E você me diz: "Então se mate!"... Eu diria: "Não tenho, nem nunca tive, motivos para isso" e mesmo assim, não repetirei hoje que a vida é bela, eu sei que é, mas não quero dizer.
Esse é o meu vazio sem o nada, meu romantismo sem amor, minha boemia sóbria, minha comédia sem graça, minha melancolia sem dor, só os dias que passam e passam rápido demais e eu que os percebo tão devagar. Estou bem, o dia já se foi tão cedo, ah sim! É que acordei tarde! E o café já estava frio...
*Ouvindo "Colorblind" do Counting Crows*
enviada por thaisfairy
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