25/10/2004 00:47
Deep Surface
Não gosto muito de Titãs, mas domingo eu quero veeer, o domingo passar, domingo eu quero veeeer, o domingo acabar! Se é pra começar a semana, que começe logo caceta! Se for pra mergulhar na água gelada, sem rodeios, sem triscar com os dedinhos do pé na superfície gélida, tomemos logo o fôlego e coragem necessária e pulemos logo no caldo hipotérmico do cotidiano, mas no meio do salto, gritarei alto... e nesse instante, vos escrevo, antes que essa onda fria congele minhas palavras e os lábios trêmulos não sejam capazes de pronunciar o verbo inerte nas profundezas dos dias cinzas. Estou suspensa, e teria um termo mais perfeito para definir um domingo à noite?! Suspensa, alheia, enquanto espero a água fria se chocar com a carne morna, e olho pra trás esquecendo que agora já é tarde, que parar é possível, mas voltar não. Espero um bom megulho, se por ventura me faltar o ar, logo voltarei à tona para aliviar-me nesse frenesi asmático de escrever, cuspirei toda minha verborragia dos meus pulmões espremidos. Pois logo não confio no silêncio, pois logo não confio no meu fôlego asfixiante de me calar. Manterei meus olhos, que tanto ardem nessa solução turva de viver, bem abertos, não quero perder a noção de profundidade, não quero que o abismo dessa normalidade semanal me sulgue de vez, é sempre preciso estar atenta para saber voltar à superfície quando o corpo pesado já não pode boiar. Com braços firmes, nado e desvio as possíveis algas para não me embaraçar, desincronizando assim, meu tempo n'água, pois não quero que meus dedos erruguem tão cedo, não quero estar velha quando me secar desses dias. E quando eu alcançar enfim o outro leito, espero uma mão forte para me puxar da minha exaustão e um abraço quente para me escoar dessa solidão em gotas.
Primevera, verão, outono, inverno e... primavera
Numa conversa pelo telefone com o Léo (Tantas Palavras), concordamos como a realidade cíclica nos é necessária para situarmos nossa vida em começo, meio e fim, e então poder renová-la num novo começo (haja redundância), nos dando ânimo de continuar ao nos iludirmos que estamos começando. Começa o dia, acaba o dia... começa o mês e acaba o mês, começa o ano, e acaba o ano. O fim, além de nos trazer uma certa melancolia nostálgica, por equilíbrio e compensação, nos traz também, a esperança de um novo começo. Sim, precisamos disso e muito! Imagine só ler um livro de mil páginas sem capítulos ou nenhuma pausa? Precisamos viver em fragmentos cíclicos, pois o caminho retilíneo nos assusta.
Bem, repetindo o que eu acabei de dizer, é o que o filme do coreano Kim Ki-Duk mostra em Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera, contando a história de dois monges que vivem numa espécie de mosteiro flutuante. Não pensei, ao entrar na sala de cinema, que o filme fosse mexer tanto comigo, mas me supreendi. O filme mostra essa idéia de ciclo, tão enfatizada pelas culturas orientais-budistas, de uma forma trágica e ao mesmo tempo esperançosa... exatamente, entre o fim, reticências e começo.
E o Troféu Goiaba-Joinha Vai Para:
_ Ai! Coitada da mocinha que tem que repetir: "Nina é uma livre adaptação de Crime e Pecado..." (Se referindo ao livro "Crime e Castigo" do Dostoievski) "...Que seja, eu não li esse livro!"
_ Nem eu.. HAHAHHAHA
_ Nossa, receber o ingresso de professora foi uma premodição do futuro...
_ Léo, a pessoa que sentar ao meu lado será minha alma-gêmea! (O filme acaba e o lugar continua vago).
*Ouvindo "Concrete Sky" da Beth Orton*
enviada por thaisfairy
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