16/11/2004 21:21
Aquário vazio
Caminho pela casa vazia, procuro nos corredores alguma direção certa. Está tudo tão quieto. A sala nunca esteva tão grande, a claridade mal é capaz de penetrar o cômodo. Ligo o computador, desligo. Ligo a TV, desligo. Ligo o rádio, desligo. Nada é o bastante para entreter a solidão corriqueira. As lembranças ganham efeitos de flashback de um filme dos anos oitenta, com direito a imagem distorcida, névoa e eco. Quando a onda passa, me encontro jogada no sofá. As cortinas fazem a única ação da cena, vão e voltam, encobrem e revelam o vazio do meu rosto apático. Todos trabalham, é importante trabalhar, deve ser, eu acho. A porta está lacrada, não há mundo fora disso aqui, não há mundo para mim agora. Dói pensar nos sorrisos que precisarei fingir lá fora. A beleza está tão alheia hoje.
Sempre quis ter um cachorro, mas nunca foi possível. Então, para remediar a ausência de um animalzinho, eu ganhei um aquário. Certo dia, mergulhei a minha mão dentro do aquário, mas logo tirei, pois tive medo e angústia de sentir as escamas dos peixes. Observava-os impaciente. Batia no vidro, para criar algum vínculo e eles nadavam assustados, mas logo fui repreendida, me disseram que bater no vidro do aquário causa stress aos peixes.
Assim é a vida que vejo de longe, foi a única que foi possível ter. A observo pela janela, bato no vidro para fazer contato, quero pegá-la, mas tenho medo de qual consistência terá, não posso sufocá-la, não posso estar lá... não posso me afogar. Ninguém amará tanto algo que não pode ter, que não pode pegar, que não pode estar, que não pode sentir.
Assim é o meu amor, assim é o amor que me foi possível ter.
LIBERDADE
O pássaro é livre
na prisão do ar.
O espírito é livre
na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto.
(Carlos Drummond de Andrade)
*Ouvindo "Sentimental" do Los Hermanos*
enviada por thaisfairy
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