09/11/2004 03:57
Blank Freedom
Sou grata pela liberdade do papel em branco sibilando pela primeira palavra, do violão encostado no canto do quarto pedindo a primeira nota, dos livros empoeirados na estante recitando o primeiro capítulo. A tela com o pingo de tinta mostrando o retrato inacabado.
O homem foi generoso consigo mesmo em conceder os versos brancos e pobres, o romantismo despreocupado. Sou piedosa com minha ignorância, deixo-me nas prosas desconexas e incoerentes. No meu conto sem clímax, minhas crônicas sem fatos. Cavulcando com vara curta os sentimentos, faço o que posso para criar, invento lembranças, inovo as realidades não vividas, me coloco em situações fictícias... grito para escutar o eco disso tudo, e na pausa acrescento mais uma palavra.
Mas não há resultado que tire meu fascínio por aquilo que não foi começado. Não há poesia mais lírica do que o papel em branco, não há canção mais bela do que o silêncio a ser cortado, não há livro mais profundo do que a capa virgem que o esconde do prazer de suas páginas folheadas, não há quadro mais expressivo do que o pano branco, pronto para banhar-se no delírio frenético de seu criador. A pedra tosca no cio, pedindo para ser talhada, o incriado clamando para ser logo prostituído, aprisionado e limitado pelos brutos e egoístas sentidos humanos... Iremos nos redimir de tamanha corrupção? Estamos presos naquilo que criamos, tão estúpido como um animal que caminha para a jaula, quando preechemos com nós mesmos, todas as possibilidades do vazio, quando aprisionamos um coração livre e leve, dando-lhe somente o ofício de amar. Vicia-se as poesias, canções, pinturas,etc. Entorpece dos punhos, a criação. Limita o vazio com margens intencionais. Apascentam as feras, colocam sentido no subentendido, apontam e berram estéricos, as entrelinhas. Mas tudo isso não é, nem de longe, mais belo do era no momento antes de existir. Assim, me fascina... um coração trêmulo para amar, batendo sádico, pelo seu açoite, lapidado à ferro e fogo, desaventuras e desilusões, descontentamentos e angústias. Como é livre não existir, beleza infinita é aquilo que está por vir!
A eternidade só pode existir numa ampulheta parada.
*Ouvindo "Sonata ao Luar" de Beethoven*
enviada por thaisfairy
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