08/12/2004 18:27
Ofício de Escrever

Eu gostaria de compartilhar a última conclusão a que cheguei: Não há criatura viva mais egoísta e egocêntrica do que os escritores! Ouso generalizar tal afirmação, com base nos poucos, que me mostraram claramente, seu inconveniente delito crônico.
Explico-me logo, levantarei os argumentos leves com urgência, pois os escritores que possivelmente podem ler isso, provavelmente se aproveitarão das verdades inacabadas para concluirem si mesmos, utilizando de forma indevida as lacunas dos fatos. Pois bem, assim como um poeta usa o céu e a terra para refletirem suas respectivas imagens (isso quando se dão ao mínimo esforço de não serem diretos), buscarei outras referências para ressaltar a gravidade da minha conclusão.
Imagine um médico, que vivesse de medir sua própria pressão sangüinea, que averiguasse de hora em hora, periodicamente, seu nível de glicose no sangue. O estetoscópio lhe proporcionaria a nona sinfonia de Beethoven, sua ópera se limitaria a palavra "trinta e três" (o "trinta" pelos tenores e o "três" pelas sopranos) e sua poesia à receitas médicas e auto- recomendações. O prazer de sua leitura se deveria aos compêndios de anatomia humana e seu jornal diário seriam as bulas das medicações. Sua angústia seria o eterno resfriado provocado por banhos quentes e exposições intencionais à brisas frias, a fim de testar e estimular seu sitema imunológico a ser mais resistente e eficaz. Exaltaria seu passado, oferendando aos seus ancestrais,os antigos curandeiros, ervas homeopáticas. Restauraria sua espiritualidade nas medicinas alternativas, em rituais de magnetização e se aproximaria mais de Deus se auto-flagelando nas sessões de acupuntura. Alimentaria-se somente do que seus gurus, os nutricionistas, julgassem prudente e se embriagaria das águas minerais das mais puras fontes. Seus pacientes seriam apenas inspirações, das quais se utilizaria para se precaver de moléstias desconhecidas. Sua morada seria os consultórios e seu templo, as grandes clínicas médicas. Sua política, seria o capitalismo das avançadas parafernalhas e tecnologias médicas. Passaria suas férias fazendo trilhas endoscópicas pelas sendas digestórias. Traçaria seu mapa-astral, nas linhas de seu eletro-encéfalo-grama e marcaria o tempo com seu marca-passo. Suas paixões, nada mais seriam do que impulsos nervosos e seus filhos, a confirmação de seu fértil sistema reprodutor. Acalentaria suas fragilidades emocionais em monólogos no seu divã e sua vaidade seria nutrida de comésticos dermatológicos. A vida em suma, seria a saúde, e a saudade esclareceria, como esclarece a todos, a inutilidade de seus esforços em vencer o tempo.
Assim é, um escritor, que só vive de si mesmo, que relata no ferro e na areia, a mesma profundidade de sua própria alma. Troque seu ofício, e verá um advogado que se acusa só para se defender, um contador que lucra somente para acessorar suas próprias perdas e ganhos, um padre que questiona sua fé só para poder tornar a se doutrinar. Um escritor, que escreve sobre o escritor, que usa outras referências para explicar o escritor, que aponta seus delitos e volta ao mesmo paradóxo da metalinguagem, a sua linguagem em outras imagens, só para ver seu reflexo, e se aproveita da sua própria lacuna e do vacilo da terceira pessoa para iniciar-se e encerrar-se na palavra eu.

*Ouvindo "Sleeping With The Ghosts" do Placebo*
enviada por thaisfairy






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