07/01/2005 05:29
Pequenas Torturas

Quando somos crianças, temos noção de muitas coisas e aperfeiçoamos a principal atividade infantil, não, não me refiro a crescer, isso a própria natureza já se encarrega, não precisamos fazer nada além de respirar e nos mantermos vivos que o próprio metabolismo já faz o favor de espichar os ossinhos, não, também não é brincar, a brincadeira, pra quem não sabe, é só uma imitação proporcional da vida adulta, me refiro a aporrinhar a vida alheia! Ah, isso sim, isso as crianças sabem como ninguém, quando se cansam de aporrinhar seus colegas, resolvem atacar os adultos com estratégias friamente testadas e calculadas de deixar qualquer torturador chinês de queixo caído. Há os que defendem, lembrem-se que há advogados até para o diabo, e no caso, os psicólogos servem muito bem de mediadores e com eles não desejo ser a promotora, o que?! Contestar Freud?! Eu não estou tão louca assim! Mas de todas medicinas possíveis, ninguém (nem os pediatras) explicará tão bem os efeitos de um mega- ultra- surround- berro- birrento- sound como os otorrinolaringogistas! O chantagem sonora, é sem dúvida, a mais nociva a qualquer ser adulto ouvinte, e me questiono se os surdos estão a salvos das vibrações neuro-explosivas de uma criança que não conseguiu o que quer e usa sua arma mortal para obter suas necessidades vitais. Vá a uma loja de doces ou de brinquedos e entenderá o que falo, mas alerto o perigo da audio-exposição. Para manter seus tímpanos e sistema nervosos ilesos, reproduzirei o processo:

_ Manhêêê, eu quero esse super-homem! Compra vai...
_ Mas filho, esse boneco está 200 reais e além do mais você já tem esse em casa, que incluse você queimou com o isqueiro, lembra?
_ Ah mãe, por isso mesmo, ele não resistiu a própria visão de raio-x e esse aí ó, tem a capa amarela... _ Nesse instante o menino pega a embalagem, disposto a não soltar mais.
_ Filho, deixa mais pra frente que a mamãe compra, seu aniversário já tá chegando mesmo, antes-de-ontem seu pai já te deu o posto de gasolina, né?!
_ Eu não gosto mais daquele posto! Eu quero o Super Homem! Vai mããããe, por favor, aí no meu aniversário você não precisa me dar mais nada!
_ Não (Plim, palavrinha mágica que desencadeia o processo) filho! Deixa mais pra frente que depois eu compro, hoje não, só vim ao shopping pra trocar as cortinas que não combinaram com a cor da parede, vamos que a mamãe tá com pressa, até te compro um Mc Lanche Feliz, que tal hein?!
Os olhos do garoto já lacrimejam e sua voz já se eleva de forma considerável:
_ Eu não quero o Mc Lanche Feliz! Eu quero o Super Homeeeeemmmmmmm! Vai mãe, por favor, por favor, eu não te peço mais nada!
_ Vinícius, HOJE N-Ã-O! Vamos embora, vamos!_ A mãe o segura pelo braço, o menino se solta e solta tudo que pode haver em suas cordas vocais:
_ Hãããããããããããããããããããããããããããããmmmmmmmm... _ A primeira sirene é dada (é hora de fugir, se abrigar em qualquer lugar), e no intuito de poupar mais suas forças para o grito, ele se joga no chão, e lá vai a segunda ainda mais forte:
_Hummm Haaaaa ÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ aaaaaaaaaaa Hmmmmmmmuh... _ e assim a sirene se reproduz incansavelmente e quando pensamos que a sua intensidade diminuirá na próxima, eis que os agudos estridentes se superam. Quando finalmente a mãe, incumbida pelos olhares agoniados alheios, resolve tomar uma atitude, o menino se alimenta para o berro final que me impossibilita de reproduzi-lo com meras onomatopéias.
Cansado, vencido pelo fracasso, o menino chora apenas, e a mãe tenta sem sucesso, imbutir-lhe o sentimento de culpa:
_ Tá vendo?! Olha que feio, um rapaz como você fazendo escândalo, tá todo mundo olhando... tcs,tcs,tcs,tcs...
Mas até as bestas das savanas africanas se cansam, e o menino vendo-se derrotado, exige então, qualquer coisa para compensar o seu esforço enquanto é arrastado para o estacionamento:
_ Manhêêê, e o Mc Lanche Feliz?!


Trimmmmm...

D. Pedro II, quando foi apresentado a mais nova invenção do escocês Graham Bell, se assustou indagando:

_ Ora pois, e isto fala?!

Salve salve meu imperador, mal sabes que além de falar, o telefone tem uma utilidade secreta muito comum entre as crianças: APORRINHAR!
E para me redimir das acusações proferidas nesse post, digo que fui criança, e como todas elas, eu descobri a potencialidade maléfica que este aparato comunicativo poderia proporcionar a uma criança sem ter muito o que fazer. E como todas outras aporrinhei açogueiros, pedi pra falar com o Sr. Pires, averigüei carros cor-de-gelo nas esquinas das minhas vítimas, etc. Para tal ação, há é claro um manual auxiliar imprescindível: A LISTA TELEFÔNICA. Pude então, melhorar e sofisticar os enredos das aporrinhações. Por exemplo, liguei para todos os Romeus procurando suas respectivas Julietas e vice-versa.
Mas a "satisfação infantil" são duas palavras que se anulam, não contrariaria tal oxímoro simplesmente me cansando de discar, aporrinhar, desligar, rir até perder a graça e procurar outro infeliz anônimo interlocutor para alimentar a sádica atividade comunicativa. Eu queria conversar, fazer uma pesquisa com as mais prováveis vítimas do mercado, me ocorreu assim, a idéia originalíssima de ligar para o último nome da lista, prestar até uma assistência psicológica ao pobre diabo que nasceu de uma família do sobrenome Z-alguma coisa. Claro que não o procuraria pelo sobrenome, até porque, nem sabia como pronunciá-lo. Tudo que me lembro, era que o último dos últimos se chamava Santana:

_ Alô?!
_ Alô, eu gostaria de falar com o Santana por favor?
_ Hummm, com o Santana?
_ Isso mesmo!
_ Olha bem, estamos equipados com um sistema anti-trote e vou chamar a polícia se você ligar de novo!
_ (...)
(tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu)

A minha imunidade estava quebrada por um aparelhinho pouco difundido na época: A BINA TELEFÔNICA! Uma pessoa que possuísse uma bina, exigia respeito. A partir de então, ponderei e tive a paranóia de que todas as casas tinham resolvido adquirir o mais novo anti-aporrinhações, quem sabe o tal Santana sugeriu a todos da lista o seu aparelhinho mágico?!
Quando disquei, mal sabia que Santana poderia ser um nome feminino ou tampouco de Santa. Em verdade, em verdade vos digo: Bem aventurados sois os últimos da lista, pois as crianças demoníacas, eis de endireitar.
Esse foi o meu último trote.

Nota: Todos os nomes são fictícios, com exceção do(a) pobre Santana.

*Ouvindo "Buy Her Candy" do Sleater-Kinney*
enviada por thaisfairy






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