11/02/2005 21:01
Anti-horário
"Nossa, já está amanhecendo!" ... A claridade me assustava, finalmente tinha encurtado a eternidade noturna àlgumas horas, dúzias de pensamentos, 3 cd's, um cinzeiro cheio, três capítulos de Virginia Woolf e um punhado de planos inertes. Hoje, a madrugada é inquietude confortável, leve açoite solitário quando paciente escuto as vozes que não me deixam dormir. A manhã me traz o alívio exaustivo com novas promessas apáticas, a mentira necessária para burlar a culpa de não acompanhar as pessoas nos pontos de ônibus, que se apressam para não se atrasarem ao trabalho, motivo de orgulho: Trabalhadores honestos, dignos de respeito, dormem cedo e acordam cedo, como deve ser. "Vão na frente, que eu alcanço depois" _ penso, e tantas pessoas passam por mim, enquanto me debruço na janela já inundada da manhã que vi nascer. As batidas ritmadas do martelo no apartamento em reforma acima, as buzinas dos carros na avenida congestionada em frente, a música do caminhão de gás embaixo, o sinal da escola primária ao lado, o aviso da estação de metrô atrás... Sons que circundam o cotidiano, sons que me isolam enquanto tento abafá-los com o meu travesseiro. E quem entenderia o cansaço matutino? E quem entenderia meu entusiasmo vespertino? E foi quando entendi que o tempo não são horas e as horas não são números e que minha vida não é atrasada, meu giro é que é anti-horário.
*Ouvindo "Angelene" da PJ Harvey*
enviada por thaisfairy
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