07/09/2005 22:39
Ensaio da nojeira
É preguiça, admito! Preguiça pura, o genuíno espírito macunaímico. O problema é aflorar essa preguiça toda quando se mora sozinho e se descobre que as roupas não tem um botãozinho auto-clean (tampouco a louça), não dá pra lavar banheiro tomando banho simplesmente, a comida não brota da panela e principalmente: comida estraga!
Um dia minha mãe me deu uma lata de pêssego em calda, levei a lata pra casa, abri e comi uma metade somente. Guardei o resto na geladeira, bem na frente da caixa de leite. Na manhã seguinte quis tomar um toddy, e eis que tirei a lata da geladeira para pegar o leite e a coloquei no cantinho da pia.
E mil anos se passaram...
Que cheiro estranho é esse? Cheirei tudo minuciosamente, dentro da geladeira, o lixo, o cesto de roupa suja, o ralo, as panelas esquecidas no fogão, o armário de comida. Não, não... é um cheiro de mofo.
E dois mil anos se passaram...
O maldito cheiro persistia, acendi incensos, esfreguei o chão, joguei pinho-sol no banheiro, passei a levar o lixo pra fora nos dias de coleta, rezei o pai nosso e me benzi.
E três mil anos se passaram...
O azulejo da cozinha é amarelo, a lata era amarela, mas um dia eu quebrei a camuflagem do rótulo que começava a esverdear. EUREKA! Ali estava, a latinha esquecida no canto da pia. Me aproximei com cautela, mas fiquei com nojo de ver o que tinha dentro.
E quatro mil anos se passaram...
Peguei uma colher, condenada ao lixo depois da tarefa suja, e levantei a tampa de alumínio. Não, aquilo não era mofo. Toda uma fauna & flora se criou dentro daquela lata. Era uma coisa verde, abstrata, e crescia. Mas nem Sartre, mas nem Clarice explicaria minha "Náusea segundo TH".
E cinco mil anos se passaram...
Eu queria era ver no que aquilo ia se transformar, baixou o Darwin, e todos os dias comecei a observar a relva fungi daquilo que inacreditavelmente fora uma lata de pêssego em calda.
E seis mil anos se passaram...
Comecei a me afeiçoar pela coisa e resolvi mostrar-la a alguns amigos. Foi um show bizarro! Ninguém se atreveu a jogar aquilo fora, poderia ser radioativo, corrosivo, explosivo, etc.
E sete mil anos se passaram...
Era dia de faxina, tinha que ser. Temi que chegasse a hora que a lata começasse a conversar comigo, ou então, que num dia qualquer quando chegasse do trabalho, saísse tentáculos da lata e me levasse para uma dimensão desconhecida, como naquele filme Jumanji. Olhei pra lata e saí correndo.
E oito mil anos se passaram...
Acordei, abri a lata, olhei a coisa e falei: "Cara, que coisa nojenta! Credo" e joguei a lata fora.
*Ouvindo "Heaven" do The Rapture*
enviada por thaisfairy
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