27/10/2005 00:11
Escrito a carvão
"A tua presença entra pelos sete buracos da minha cabeça..."
(Presença Morena - Caetano Veloso)
Chega uma hora que presença é gás inflamável, você fecha as janelas e portas e ela entra pelas frestas, sobe pelos ralos, penetra as rachaduras do teto, contorna as arestas das paredes, umidece, vicia e sufoca o ar. Adentra-se pelos poros, adere na pele, solidifica na carne, enrijece os músculos, se assimila aos órgãos, entope as veias, entorpece a sobriedade e carrega o coração.
Rastejamos pelas ruas e ecoam nomes dos bueiros. À medida que seguimos, os postes se apagam e não há maneira de voltar. Não há retas, apenas pegadas sem passos.
Nessas horas de solidão vigiada, silêncio ressonado e do teu nome que me nega, torno e transtorno diálogos reprisados a fim de encontrar alguma novidade nas minhas lembranças, pois só restou aquele disco riscado com a sua música predileta e odeio admitir o quanto gosto dela, pelo simples fato de não conhecer a próxima.
Quando o fogo do meu isqueiro incendiou, negro, o colchão com as formas primárias e apagadas do teu sono, fez-se fumaça densa do meu caos, e a minha casa sustenta-se apenas do carbono a se esfarelar no seu esquecimento...
... mas presença, meu bem, emana independente da vontade de doá-la ou recebe-la. Apague-me abruptamente do seu convívio, deforme meu rosto no teu passado, cuspa meu gosto da tua saliva saturada, ensuderça-se do meu tom, exorcize meus demônios da tua paz controlada, mas a cada vez que evaporo das suas intenções, sublimo-me presente na tua solidão.
*Ouvindo "Bulletproof" do Radiohead*
enviada por thaisfairy
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