07/11/2005 23:22
Expediente
Meus olhos pesavam o ar denso da fumaça de toda a última noite que não consegui dormir, e tudo tomou dimensões longínquas e caóticas. Ai, e era complicado demais ir ao bebedouro aliviar a secura dos olhos, era longe demais, o café, pra impulsionar o sangue que corria feito lagoa. E quando é assim, forças coagem, e tudo se faz pacto: O rapaz das piadas estava de mau humor hoje, o bater exaustivo das teclas estava mais histérico hoje, o chefe estava mais exigente hoje, e justo hoje... E fui a escolhida (como não?) para fazer aquele trabalho de filho-da-puta. Quem trabalha sabe muito bem o que é trabalho de filho-da-puta, é exatamente aquele que te tirará do sério por conseguir ser tão árduo e ao mesmo tempo tão inútil. Sim, inútil! Você não tampará os buracos da camada-de-ozônio com ele, você não salvará uma criança morrendo de fome na Etiópia ao executá-lo, você não alterará nem um mísero pontinho infinitas vezes depois de uma vírgula no mercado financeiro, aliás, esse trabalho não valeria nem a energia consumida para mudar um dígito que passa a 300 Km/h nos letreiros da bolsa de valores de Nova Iorque, nem mesmo a teoria do caos, que defende que o bater de asas de uma borboleta no Texas pode acarretar num tornado no Pacífico, poderia prever algum efeito resultante, em milhares e milhares de anos, daquele servicinho safado. Toda a cadeia de possibilidades daquilo que o meu chefe me pedira pra fazer terminava na minha cara emburrada e a cãibra do sorriso ao dizer: "Claro, beleza, pode deixar que eu faço e amanhã estará prontinho na sua caixa de e-mail". Poderia detalhar sobre o que eu fora incumbida de fazer, mas explicar a tarefa a tornaria mais ainda de filho-da-puta, e acredite, eu ainda tenho um certo respeito próprio para denegrir meu ínfimo papel no universo. Basta dizer: era um trabalho de filho-da-puta!
Mas, se os brutos também amam, se os ricos também choram e os santos também pecam, os pobres-diabos fadados a trabalhos filhos-da-puta também pensam! Bem, seria humanamente impossível acreditar nisso se vissem a minha cara fitando a tela do computador nessa tarde, as únicas coisas que se moviam eram os dedos em movimentos mecanizados no teclado decorado e os olhos que piscavam sem expressão, como o piscar de um passarinho, mais nada, nada, nada! Mas dentro daqueles olhos que refletiam a mediocridade assalariada estava a descoberta: A solidão não é o mal do século, solidão é o mal da vida isso sim, o mal do século é a tendinite.
*Ouvindo "Playground Love" do Air*
enviada por thaisfairy
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